JAIME PRADES
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MARIA CECÍLIA F. LOURENÇO 87
MARIA CECÍLIA F. LOURENÇO 87
Diretora da Pinacoteca do estado de São Paulo em 1987.


Texto do catálogo da ocupação "Tupinãodá".

DA RUA PARA OS MUSEUS andanças afetivas

O Projeto Contemporâneos programou para novembro de 1986 o Grupo Tupinãodá, numa instalação multi-sensitiva realizada por Jaime Prades, José Carratü e Rui Amaral. Numa perfeita antropofagia, conjugam branco e preto, luz e penumbra, ação e nada, linhas mais que massas, desenho muito desenho, coletivo e individual, formas resgatadas da memória, compulsividade à pesquisa, comunicação com as inquietações do tempo e, principalmente, muita energia.

Vêm da rua, onde realizam intervenções nos muros, com giz escolar, que as mãos apagam e a chuva embaça ou anula. Certo ar zombeteiro de toca-campainha-e-se-manda, se engata a uma séria pesquisa estético-formal, abrangendo técnicas plásticas, ideário do modernismo brasileiro, bem como conceitos e reflexões sobre o indivíduo.

Recobrindo muros com material fugaz, tátil e acessível, contribuem para a discussão da obra de arte, questionando os aspectos monumentais e permanentes que acompanha os objetos sacralizados nessa categoria. Com as intervenções no espaço urbano, o suporte passa a ser um dado ocasional e o observador, que busca num ritual amaneirado o equipamento artístico, seja este galeria, museu ou grandes mostras. A arte da rua altera essa relação com o fruidor, pois traga-o do palco da vida, no momento de desempenho cotidiano, buscando certa cumplicidade.

Negam valores instalados desde o renascimento e que englobam o culto ao autor, reconhecido como autoridade a realizar obras únicas, que não podem ser repetidas, tampouco sofrer qualquer tipo de mudança, passível de crítica. Não se pode falar em falsificação, cópia e menos ainda em preço, ao se tratar desse muralismo dos tempos atuais; a imagem volta para o lugar original, os muros, contribuindo para a reconquista do espaço consensual, que ocupava quando refletia inquietações das comunidades.

Curiosamente vão da rua para o museu, sem abandonar a envolvente perplexidade que lançam sobre o transeunte; tiram partido do espaço interior, tomando-o como aliado para a tarefa de desencadear o jogo simbólico, instigando a uma relação desabitual, como na rua. Atualizam com essa instalação o conceito de museu para aqueles que teimam em vê-lo como um sarcófago, onde estão depositadas as conquistas do passado e onde o presente só comparece como rito.

Os indícios das suas andanças afetivas na cidade ficam inequivocamente gravados nas texturas empregadas por Jaime, nas formas urbanas de Zé, bem como nas multidões de Rui. Variando entre uma pesquisa dramática, densa, gráfica e matérica, mantém uma narrativa inquietante, onde o cromatismo de negros contribui para o mergulho profundo.

As flutuantes de Jaime incorporam a teia (tela) dos muros porosos, lisos, rugosos, exalando o hálito ácido da urbe a sufocar viventes. Se elevam do plano da máquina, dos espaços tetônicos, sendo viandantes da esfera do fluído, onde moram os ecos e os olhares perdidos. Como os balões são volumosos e errantes, escapando das mãos que os desejam aprisionar na urdidura fina e sutil do explícito.

Inquietantes remontam às terras do Sem-fim, que Raul Bopp pensava poder morar no início da década de 30, para estrangular a Cobra Norato, para se apoderar de sua pele de seda elástica e sair a correr o mundo, talvez para superar o "chão de lama rouba as forças dos meus passos", como dizia o poeta modernista. Esse mundo das raízes tentaculares, vindas da terra mas alçando-se sobre a cidade num vôo virtual, povoam os meandros da produção de Jaime.

Toda uma pesquisa de visualidade cubista está subjacente à obra porém libera o observador para a viagem dos planos altos, despregando-o da estreiteza dos limites da linha da terra, metáfora do pesado, encastelado e proscrito da imaginação, que é seu oposto, pois nela tudo pode, se assim você desejar. Resgata o mundo microscópico e aquele dos invertebrados, que procuramos obcessivamente ignorar, pois lá estão os medos e as imagens recalcadas da face instintiva e prazerosa dos seres viventes.

Rui se acerca das multidões e das massas edificadas, onde o conjunto e a unanimidade se sobrepõem, ao individual; cada ser atua, sobe, desce, se estica, se contrai, não obstante configuram uma imagem geral, remetendo-nos para o aniquilamento da singularidade a que estamos todos submetidos. Se no amor a entrega de si mesmo caracteriza um instante maior, na sociedade isto representa certo enquadramento às conveniências dos poderosos.

Funcionam como retículas lúdicas cadenciando um ritmo visual, onde as linhas retas dos membros desempenham o contraponto das massas geométricas das demais partes do corpo. Constituem um aglomerado, calado e essencialmente gráfico, que sai do plano na conquista do espaço; a emoção brota do fundo branco pleno de sensualidade, paz e profundidade, traindo o anonimato do exército de saltimbancos na praça. Acima do dicionário das profissões ou de inúmeras possibilidades do corpo, as multidões de Rui desvendam a intencionalidade sensível dos seres, particularmente destes seres, como diria Oswald de Andrade no Manifesto Pau-Brasil: "Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação".

O clima da obra de Zé Carratü tem muito de paródia teatralizada do grotesco, com paixão criadora coleciona dejetos, abandonados nos terrenos baldios, no canto da esquina, na sombra do anonimato. Têm uma densidade dramática, capaz de revelar pelas fendas a marginalidade dos excrementos da sociedade industrial, que constrói requintados automóveis e abandona pneus.

Os desenhos-pinturas que apresenta encontram-se identificados com os contrastes brasileiros das altas tecnologias convivendo com o capenga, bem como daqueles mais contundentes de sermos um país há anos destacado entre os 10 de maior mortalidade infantil e que caminha em passos ágeis para comparecer na lista dos 10 mais desenvolvidos em relação ao Produto Interno Bruto.

A poética dos extremos ganha vida e emoção em seu trabalho, pois como Macunaima, o herói, sem nenhum caráter, tira da cidade a ênfase que lhe atrai, num jogo de transformação; sai do "cisma assombrado" do "respeito cheio de inveja" por este mundo da máquina "que matava os homens que mandavam na máquina", para numa gargalhada conseguir superar o embrulhamento, pontificando: "A máquina devia ser um deus de que os homens não eram verdadeiramente donos só porque não tinham feita dela uma Iara explicável, mas apenas uma realidade do mundo".

Com a obra desses artistas supera-se esse universo das aparências visíveis, para se aportar na estratosfera do mais além, onde vivem iaras e curupiras, icamiabas a mutilar os corpos para melhor combater, cheio de fetiches e muiraquitãs, traduzidos em formas cotidianas, sem deixar a essência singular que os diferencia. Resgatam para a atualidade vertentes abertas pelos modernistas brasileiros acrescidas do brega, punk e outros adereços de mão.

Maria Cecília França Lourenço
4 de junho de 1986