JAIME PRADES
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PAULO KLEIN 2012
Critico de arte e curador.


Texto para a exposição "Parede s/ parede"

JAIME PRADES ARTE IMINENTE

PRADES PAREDE S/ PAREDE TRAÇA GRAFA PINTA GRAFITA ESCULPE QUESTIONA RETIRA ACRESCENTA BATE REBATE PENETRA TRANSPÕE FURO FERRO PONTE TRANSVANGUARDA SIGNOS IMINENCIAS SIGNIFICADOS

Temos bons motivos para considerar Jaime Prades um dos mais instigantes artistas da atualidade no Brasil e no Mundo. Ele se mantém, ao longo das três últimas décadas em sintonia contínua com questões vitais não só para as Artes, mas para a Humanidade, plugado com as últimas tendências não só da Criação como da Consciência Planetária.
Desde os anos circunvizinhos a 1980, quando fez parte do grupo Tupinãodá , Jaime Prades construiu carreira solo numa sucessão equilibrada de atitudes que não se conectam apenas com o êxito pessoal como artista, mas que lançam mão de alternativas para alertar sobre a condição do Ser no Mundo. Isso já é o bastante para destacá-lo não só como artista plástico, visual, mas como ser atuante na sociedade, a exemplo do que praticaram nomes importantes da História da Arte.

TUPINÃODÁ MOLEQUES ÉTICOS ESTÉTICOS TORRE NUVENS NUVENS NUVENS CÉU NUVEM

Artista nato, Jaime Prades viveu a primeira infância em Madri, Espanha, onde nasceu rodeado de artistas importantes, ao lado de seu pai, aprendiz de cinema envolvido com muitos artistas e expressões. Muito cedo ele reconheceu-se artista do desenho, das tintas e graffitis, dos sonhos e dos materiais além da imaginação.
Em sua trajetória destaca-se sua participação no histórico Tupinãodá, referência da arte urbana em São Paulo, com quem realizou interferências urbanas na década de 80, quando juntos experimentaram suportes inusitados. Isso conduziria o grupo da rua para a Galeria o Subdistrito e depois ao MASP – Museu de Arte de São Paulo. Com um livro primoroso na bagagem – ‘A Arte de Jaime Prades’, com texto introdutório do crítico e curador Fábio Magalhães, com projeto gráfico de Claudio Rocha e fotos de sua amada parceira Neta Novaes, Jaime Prades é um resistente da arte desenvolvida com sensibilidade e muito trabalho.
Dos tempos com seus peraltas artistas de rua, Prades guarda até hoje certo ar blasé, de moleque irreverente, mas agregou novos valores éticos, estéticos, morais e provocativos que o aproximam dos que respeitam a vida como condição principal, criador que harmoniza céu, terra, seres humanos e ... nuvens!

JP PRODUZ ARTE CERTEIRA SETA ALVO ARQUEIRO ZEN LUCIDEZ POS CONTEMPORANEO

Jaime Prades não deixa ‘pedra sobre pedra’ nesta exposição ‘parede s/ parede’. Começa demonstrando, que o ato de criar é ação contínua que independe de academias, repetição de fórmulas, técnicas ou mídias que se utilize para construir um discurso coeso, bem humorado, consciente dos problemas humanos e dos desvios de nossa época. JP produz arte certeira, como seta no alvo do arqueiro zen.
Construção à parte, morfologia estética em pauta, falamos de um artista que ousa criar ‘movimentos de lucidez’ com ‘lampejos de ousadia pós-contemporânea’, o que resulta nesta obra que ilumina com gestos e ideias o atelier galeria Priscila Mainieri e nossas mentes.
Jaime Prades prossegue em sua travessia pensando e repensando seus atos e atitudes na arte, sintetiza e expande anos de experiência vivendo, vivenciando e sobrevivendo à arte dita contemporânea, com maneira própria, ‘neo-contempora-nea’.
Mas sua arte guarda, continuadamente, sutilezas que não descobrimos de pronto. É fundamental sua disposição para mergulhar em outras águas, águas (im) puras, águas turvas às vezes, águas densas, águas mornas, águas profundas.

MATÉRIA SUPORTE FONTANA LEAL IDEIA HORIZONTE FLOR ESPERANÇA

Nas profundezas da criação de Jaime Prades algumas revelações adicionais, relações com a matéria-sujeito, matéria-apoio, matéria-suporte, matéria-pictórica, matéria-concreto. Neste sentido, JP repercute posturas de períodos fundamentais da História da Arte, como as de Lucio Fontana, na Itália e as de Pedro Paulo Leal, no Brasil. Mas, importante notar, também faz sentirmos que, o que o move mesmo sua arte é o Pensamento, a ideia que semeia horizontes, que floresce esperanças.

ARTISTA DE IDEIAS ‘GRAFFITOS PORTÁTES’ COMO NUVENS DE BAUDELAIRE

Jaime Prades ama – como o estrangeiro de Charles Baudelaire e como as crianças – as nuvens, ‘as nuvens distantes, as nuvens que passam’. Esta é uma liberdade poética que utilizo para situar a poética de Prades frente às outras poéticas que grassam na arte contemporânea.
Ao harmonizar questões interiores e exteriores, materiais e imateriais, sem importar-se de imediato com exigências do mercado, Jaime Prades exerce com determinação e leveza a missão plena do artista atual, sem conectar-se a modismos, tendências ou iminências poéticas. A verdadeira arte é poética – trágica ou lírica – ou não será arte. Tanto a iminência das poéticas, como a iminência dos materiais, são detectáveis nas ações de Prades.

CUBISMO MINGOTE PICASSO TAPIES TORRES PENCK VALENTIM GAUDÍ POVERA
A PO CA LI P S E * 2 ‘ 8 7 $ * #

Numa trajetória que sempre aliou o grafismo de figuras icônicas - que transitam entre cartum e simbologias ancestrais (e da arte rupestre – que encontramos também no antropomorfismo de Penck, por exemplo) aos processos híbridos desenvolvidos atualmente, especialistas aludem a suas simpatias e referências. Ele mesmo concorda, deita e rola com citações ao Cubismo, Miró e Picasso, Antoní Tapiés, Torres Garcia e até Penck. Mas, lembro também, de Antonio MINGOTE, artista amigo de seu pai, que conheceu na infância em Madri e que o marcou como desenhista hábil, e de Álvaro APOCALIPSE, criador de sonhos e bonecos, com quem realizou oficinas de arte num remoto Festival de OURO PRETO.
O que fica também evidente é a obra tênue e pessoal, que trabalha os interstícios da forma matérica, valoriza conteúdos e intenções que, por si só, representam a essência da criação voltada para o crescimento.
Em Jaime Prades muitas vanguardas se encontram e se expandem, construção/desconstrução que remete não só aos artistas antes mencionados, mas à Keith Haring, Art Brut, Dubufet, Brassai e ao cartunista Laerte, com quem trabalhou na juventude.
A presente exposição encontra Prades ‘esculpindo/gravando/pintando’ parede s/ parede num momento de necessidade plena de chamar atenção para questões importantes, sem perder a graça, nem o conteúdo. Nos últimos anos tem diversificado sua produção, baseada em um grafismo que traz esse ar jocoso, herdado do cartum bem humorado e na inquietante alternância de suportes. Dessa inquietude brotaram, não só suas peças recortadas em aço carbono – como as intrigantes obras que compõem o núcleo central desta parede s/ parede – Brutos e Pacificadores.
Em entrevista recente para a crítica e curadora Teresa Arruda, Jaime Prades contextualiza suas opções ao dizer: “Nesta série dos "Brutos" da exposição parede s/ parede recolho "migalhas" urbanas. Pequenos entulhos, escombros invisíveis aos olhos da cultura de consumo, são o suporte para meus grafismos. Minha opção por suportes "bastardos" não é nova. No fim dos anos 80 realizei obras sobre madeiras que encontrava nas ruas que após interferir protegia com parafina. Depois de tanto pesquisar sobre muitos tipos de suportes, minha opção por pedaços da própria cidade, criando esses "graffitis portáteis" representa minha conclusão de que nenhum tipo de suporte tradicional consegue ter a força dessa pintura anônima, inconsciente e involuntária gravada nas paredes da cidade”.
E prossegue: “A energia civilizatória que está plasmada nessas ruínas contemporâneas é a base poética para uma reflexão profunda sobre nossos valores culturais, econômicos, sociais e ambientais. Assim como, seu próprio deslocamento e resignificação representam um processo de contaminação mútua entre as artes que se utilizam do muro, uma do lado de dentro e outra do lado de fora”.
Retornando mais uma vez a questões fundamentais, JP nos questiona com parede s/ parede sobre a (in)utilidade da arte num mundo que se esfacela. Visitando com ele, dia desses, uma exibição de arte contemporânea, ele me inquiriu: “Você não acha a arte contemporânea sisuda demais”?

PAREDE TOMBADA FERRO ARMAÇÕES TENTÁCULOS ANTENAS EIS A QUESTÃO

Ele mesmo responde ao oferecer, com humor e sagacidade, elementos para reflexão, com (relativo) humor. Ao apreciar algumas destas peças que ele intitula ‘brutos’, grafismos habituais em sua obra aplicados sobre detritos de concreto encontrados nas caçambas da cidade em constante (re) construção, fiquei extasiado com a riqueza destas obras executadas laboriosamente sobre materiais descartados, com sua estrutura forte, porém sofrida, tombada à marretadas, com armações de ferro surgindo, como tentáculos ou antenas. Nas texturas, pinturas de outras épocas, sutis ocres, róseos, amarelados envelhecidos pelo tempo, que se abrem prazerosamente aos seus cuidados e a novas inserções de traços e truques.

FLOR LÓTUS LIXO ESTRELA RESPLANDECIMENTO ASTROLÁBIO VEREDA CAOS

A arte de Jaime Prades floresce do lixo para questionar o luxo.
É a flor de lótus que resplandece do caos.
Muitas elucubrações escorrem como borboletas e muitas ainda acontecerão em torno da obra de Prades. Na presente exposição ele vai além da série que inspirou o título ‘parede s/ parede’, tema para muitas especulações. ‘Graffiti portátil’, como ele brinca, grafismo sobre concreto, pintura tosca sobre material bastardo. Mas, com a exposição que ocupa a original galeria atelier, ele oferece muitas destas facetas. Estão presentes também pinturas foscas, bi ou tricolores sobre lona, esculturas derivadas de seus recortes sobre aço carbono e as construídas com refugos de madeira, da série ‘Natureza Humana’ - destacada na capa de seu livro ‘A Arte de Jaime Prades’ e que compõe o acervo do recém inaugurado Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba.
Até o momento limite para entrega deste texto Jaime preparava surpresas para esta festa imodesta ‘parede s/ parede’. Não contente com a variedade de materiais que tem experimentado - ruas, muros, paredes, madeiras – ele surpreende a cada segundo com novas possibilidades > prepara também site specific > pedras, folhas de ouro, picho, madeira, pregos sobre ‘nuvens’.
Jaime Prades é esta iminência de vida, de reconstrução de um mundo melhor através da arte e isto é, não só genial, mas também contagiante, usina de arte, consciência orgânica, integral.
Agosto Quase Primavera 2012

PAULO KLEIN
Crítico de Arte / Escritor
Association des Critiques D’Art - UNESCO
Associação Brasileira de Críticos de Arte

1-Tupinãodá, palavra retirada de um poema para designar grupo de intervenções urbanas na Paulicéia dos anos 1980. Fizeram parte do Tupi, como também era conhecido, além de Prades, Carlos Delfino, Ciro Cozzolino, Rui Amaral, Milton Sogabe, César Teixeira, Eduardo Duar, Alberto Lima e José Carratú.

2-BAUDELAIRE Charles – ‘O Estrangeiro’ Pequenos Poemas em Prosa – Editora Aguilar 1968.